domingo, 29 de maio de 2011

Despedida

Na garoa, a gana do gabola. O garbo do gato.
Seu gene, gênese de gente, faz seu gênero.
Giro.
Sinto um gostoso gole ao gogó.
Vou da gustação à gula.

domingo, 15 de maio de 2011

Sinestesia

Tudo era e existia só ali. Pelo menos para ela.
Ela existia, e era só para ele.
Ele, apenas estava lá, junto dela, naquela noite, numa simples manifestação de presença material. E só.

Já não mais tinham panos, jeans, cetim. Vestiam apenas suas peles de arrepios estalantes e fulgentes. Ávidas por toques, atrito, entrega mútua.
Deitaram-se.
Ele aproxima-se lentamente, como quem tem medo. Seus lábios se tocam. Línguas.
As mãos percorrem os dois corpos ainda com certa prudência – dela, carinho e respeito; dele, apetite, daqueles que devem ser saciados com um devorar lento, mas completo.
Seus corpos fundem-se num doce frenesi.  
Ele, ao sentir-se nela, ao sentir esmagarem-lhe no peito ofegante os dois globos pontudos e macios dela, ao entrelace de pernas trêmulas, ao sentir suas mãos frias acariciarem suas despidas vergonhas e assim, lhe imprimir sôfregos gemidos, enfim, ao se tornar quase parte dela...tudo isso tem seu último estalo orgânico quando ele, já animal, termina a cena com a mais previsível/esperada reação bruta.
Seu órgão cospe.
Os dois limpam-se e voltam ao estábulo, digo...cama.
Viram-se um para o outro, lateralmente.
Seus olhos interagem, se encontram e se acompanham por um tempo, no silêncio.
Ele a olhava e via boca, cabelo, seios, ancas e pernas. Uma mulher.
Ela o contemplava e enxergava o mundo.

E sonhava.
E sonha. 

Também chora.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Vida de morte

Sinto-me num maldito cubículo, de paredes e chão gélidos, luminosidade fraca. 
Um compartimento rígido, sem fissura ou fresta alguma, de forma que eu dependa exclusivamente de uma respiração lenta e aquecida para não sucumbir à fobia. No início digladio, me desespero, sinto frio, solidão.
Agora, já que estou presa, tento tocar o que há em volta, a fim de mensurar tamanho confinamento. Em seguida, observo, com os olhos miúdos, na busca de encontrar algo que me distraia, como um pedaço de coisa qualquer. Em vão. Insuportavelmente, só existo eu.
Deito ao chão. Tremores me abatem mas, por falta de escolha, resisto. Aos poucos acomodo minha carne quente ao terreno frígido e rapidamente nossas temperaturas se igualam, de forma que todo meu corpo fica anestesiado.
Já não sinto mais nada.
Tudo é insípido, inodoro, cego.
Negro. Tão escuro que o enxergar iguala-se ao fechar de olhos. O acordar ao dormir. 
A realidade ao sonho. A vida à morte.

Vida de morte.


(Escrito em outubro/2010, mas completamente atual).

terça-feira, 3 de maio de 2011

Eu não te conheço

Você se considera dono de si, não é mesmo?


Adora me chamar de imatura , sendo que, pra você, maturidade é um estado pessoal supremo em que errar não é admitido; se entregar a um sentimento é fraqueza ou idiotice; em que a superficialidade é o melhor caminho quando se estremece por alguém, só para não se envolver, por tamanha covardia; em que a promiscuidade é a (nojenta) opção para não ter tempo de se apegar a ninguém. Não se permite sair dessa redoma de autocontrole e desprendimento, para experimentar a sensação de ser um pouco mais...humano. Sim, humano, não sentimental ou abobalhado, apenas humano, ao contrário desse seu comportamento deveras racional, lógico e frio, como se a vida fosse uma ciência exata, composta de dogmas ou fórmulas rígidas.
Você se ausenta de sofrer, mas não sabe que o sofrimento é que nos adapta ao hostil.
Se ausenta de viver e apenas...vai vivendo.


De fato, eu sou completamente imatura, também passional e insegura, e reconheço meus levianos defeitos que acometeram sua perfeição pessoal. Mas pelo menos eu estou aqui, pulsante, na efervescência e urgência dos meus sentimentos, intensa e de coração aberto. Sofrendo também, claro, mas eu me permito porque sei que vou sobreviver. Para cada veneno que, por vezes, alastra-se pelo meu corpo, debilitando tudo que me mantém, procuro, mesmo sôfrega, pelo antídoto adequado e cada acerto se configura como uma vitória para o meu autoconhecimento. Já você não vive absolutamente nada, tão pouco se permite. Prefere tentar ser alguém que na verdade só existe pra disfarçar os seus medos. É patético.


Sabe o que eu vejo quando olho pra você? Eu vejo um bebê frágil, inseguro, enrolado num cobertor, tremendo, em posição fetal. Um dia alguém pode até enxergar isso que você tenta esconder, pode até sentir empatia, mas depois de um tempo, se você não souber enfrentar esses seus medos, só vai dar pra ver um velho seco aí dentro, e aí...


Boa sorte, seja você quem for.