domingo, 15 de maio de 2011

Sinestesia

Tudo era e existia só ali. Pelo menos para ela.
Ela existia, e era só para ele.
Ele, apenas estava lá, junto dela, naquela noite, numa simples manifestação de presença material. E só.

Já não mais tinham panos, jeans, cetim. Vestiam apenas suas peles de arrepios estalantes e fulgentes. Ávidas por toques, atrito, entrega mútua.
Deitaram-se.
Ele aproxima-se lentamente, como quem tem medo. Seus lábios se tocam. Línguas.
As mãos percorrem os dois corpos ainda com certa prudência – dela, carinho e respeito; dele, apetite, daqueles que devem ser saciados com um devorar lento, mas completo.
Seus corpos fundem-se num doce frenesi.  
Ele, ao sentir-se nela, ao sentir esmagarem-lhe no peito ofegante os dois globos pontudos e macios dela, ao entrelace de pernas trêmulas, ao sentir suas mãos frias acariciarem suas despidas vergonhas e assim, lhe imprimir sôfregos gemidos, enfim, ao se tornar quase parte dela...tudo isso tem seu último estalo orgânico quando ele, já animal, termina a cena com a mais previsível/esperada reação bruta.
Seu órgão cospe.
Os dois limpam-se e voltam ao estábulo, digo...cama.
Viram-se um para o outro, lateralmente.
Seus olhos interagem, se encontram e se acompanham por um tempo, no silêncio.
Ele a olhava e via boca, cabelo, seios, ancas e pernas. Uma mulher.
Ela o contemplava e enxergava o mundo.

E sonhava.
E sonha. 

Também chora.