domingo, 5 de junho de 2011

Não são só palavras.

Barulho. Despertador. Susto. Cama. Chinelos, tapete. Passo. Porta, banheiro, torneira, água, água, água. Porta. Escada. Cozinha, café, café, café. Cadeira, mesa. Braços, mãos, dedos. De bruço. Exaustão. Escada. Quarto. Insônia. Inquietude. Parede. Soco. Sangue. Língua. Saliva. Gosto. Mistura. Lágrimas. Sal. Cama. Tapete. Chinelos. Cama. Cama. Cama.

Ama.

domingo, 29 de maio de 2011

Despedida

Na garoa, a gana do gabola. O garbo do gato.
Seu gene, gênese de gente, faz seu gênero.
Giro.
Sinto um gostoso gole ao gogó.
Vou da gustação à gula.

domingo, 15 de maio de 2011

Sinestesia

Tudo era e existia só ali. Pelo menos para ela.
Ela existia, e era só para ele.
Ele, apenas estava lá, junto dela, naquela noite, numa simples manifestação de presença material. E só.

Já não mais tinham panos, jeans, cetim. Vestiam apenas suas peles de arrepios estalantes e fulgentes. Ávidas por toques, atrito, entrega mútua.
Deitaram-se.
Ele aproxima-se lentamente, como quem tem medo. Seus lábios se tocam. Línguas.
As mãos percorrem os dois corpos ainda com certa prudência – dela, carinho e respeito; dele, apetite, daqueles que devem ser saciados com um devorar lento, mas completo.
Seus corpos fundem-se num doce frenesi.  
Ele, ao sentir-se nela, ao sentir esmagarem-lhe no peito ofegante os dois globos pontudos e macios dela, ao entrelace de pernas trêmulas, ao sentir suas mãos frias acariciarem suas despidas vergonhas e assim, lhe imprimir sôfregos gemidos, enfim, ao se tornar quase parte dela...tudo isso tem seu último estalo orgânico quando ele, já animal, termina a cena com a mais previsível/esperada reação bruta.
Seu órgão cospe.
Os dois limpam-se e voltam ao estábulo, digo...cama.
Viram-se um para o outro, lateralmente.
Seus olhos interagem, se encontram e se acompanham por um tempo, no silêncio.
Ele a olhava e via boca, cabelo, seios, ancas e pernas. Uma mulher.
Ela o contemplava e enxergava o mundo.

E sonhava.
E sonha. 

Também chora.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Vida de morte

Sinto-me num maldito cubículo, de paredes e chão gélidos, luminosidade fraca. 
Um compartimento rígido, sem fissura ou fresta alguma, de forma que eu dependa exclusivamente de uma respiração lenta e aquecida para não sucumbir à fobia. No início digladio, me desespero, sinto frio, solidão.
Agora, já que estou presa, tento tocar o que há em volta, a fim de mensurar tamanho confinamento. Em seguida, observo, com os olhos miúdos, na busca de encontrar algo que me distraia, como um pedaço de coisa qualquer. Em vão. Insuportavelmente, só existo eu.
Deito ao chão. Tremores me abatem mas, por falta de escolha, resisto. Aos poucos acomodo minha carne quente ao terreno frígido e rapidamente nossas temperaturas se igualam, de forma que todo meu corpo fica anestesiado.
Já não sinto mais nada.
Tudo é insípido, inodoro, cego.
Negro. Tão escuro que o enxergar iguala-se ao fechar de olhos. O acordar ao dormir. 
A realidade ao sonho. A vida à morte.

Vida de morte.


(Escrito em outubro/2010, mas completamente atual).

terça-feira, 3 de maio de 2011

Eu não te conheço

Você se considera dono de si, não é mesmo?


Adora me chamar de imatura , sendo que, pra você, maturidade é um estado pessoal supremo em que errar não é admitido; se entregar a um sentimento é fraqueza ou idiotice; em que a superficialidade é o melhor caminho quando se estremece por alguém, só para não se envolver, por tamanha covardia; em que a promiscuidade é a (nojenta) opção para não ter tempo de se apegar a ninguém. Não se permite sair dessa redoma de autocontrole e desprendimento, para experimentar a sensação de ser um pouco mais...humano. Sim, humano, não sentimental ou abobalhado, apenas humano, ao contrário desse seu comportamento deveras racional, lógico e frio, como se a vida fosse uma ciência exata, composta de dogmas ou fórmulas rígidas.
Você se ausenta de sofrer, mas não sabe que o sofrimento é que nos adapta ao hostil.
Se ausenta de viver e apenas...vai vivendo.


De fato, eu sou completamente imatura, também passional e insegura, e reconheço meus levianos defeitos que acometeram sua perfeição pessoal. Mas pelo menos eu estou aqui, pulsante, na efervescência e urgência dos meus sentimentos, intensa e de coração aberto. Sofrendo também, claro, mas eu me permito porque sei que vou sobreviver. Para cada veneno que, por vezes, alastra-se pelo meu corpo, debilitando tudo que me mantém, procuro, mesmo sôfrega, pelo antídoto adequado e cada acerto se configura como uma vitória para o meu autoconhecimento. Já você não vive absolutamente nada, tão pouco se permite. Prefere tentar ser alguém que na verdade só existe pra disfarçar os seus medos. É patético.


Sabe o que eu vejo quando olho pra você? Eu vejo um bebê frágil, inseguro, enrolado num cobertor, tremendo, em posição fetal. Um dia alguém pode até enxergar isso que você tenta esconder, pode até sentir empatia, mas depois de um tempo, se você não souber enfrentar esses seus medos, só vai dar pra ver um velho seco aí dentro, e aí...


Boa sorte, seja você quem for.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Nada

Eu odeio quando você me decepciona, sem saber, com atitudes que contrariam aquela concepção intocável que quero manter sobre você, na tentativa de justificar tamanha adoração.

Eu odeio a forma menos carinhosa com a qual você me trata, sendo que eu ofereço todo o meu mundo a você, e ainda reclamo, faço birra, pois não me dou conta que este mundo ultrapassa a sua própria existência.

Eu odeio pensar que, enquanto você está aí se divertindo, fitando cada pêssego com esses olhos que um dia foram meus e, (droga), se deliciando com outras peles, permaneço aqui, à sua espera. Temerosa por suas aventuras. Triste por ainda me permitir fazer parte delas.

(Aliás, eu odeio pensar, já que você ocupa cada parte do meu cérebro, da mais importante a mais ordinária. Cada imagem fitada, cada pensamento elaborado, cada música internamente entoada...tudo tem sua marca imperativa como pano de fundo. Mesmo indesejada, ela se impõe, desafiando qualquer ordenamento de onde habita. Subjugando. Não possuo mais qualquer mecanismo de refúgio a não ser o vazio mental, racional. Se pudesse, viveria num estado de inflexível contato com o nada.)

Enfim,

Eu odeio o quanto eu te amo.  

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Mim.

Adoro ficar de bobeira, sentada, olhando com aquela cara inexpressiva para um nada material. Sou o tipo de pessoa que adoraria sumir e não dar notícias, só para apreciar minha própria companhia por algum instante. Tenho um mal terrível e sem conserto: pra mim as pessoas deveriam sempre estar disponíveis enquanto que eu mesma não sou assim. E fico sem entender, zangada, emburrada, jogando piadinha. Odeio meu jeito burro. O burro de burrice e não de ignorância. Gente que acha que o mundo gira em torno do próprio umbigo me dá arrepio. Tenho é alergia. Dificilmente converso pela manhã porque acordo pensativa. Cerca de setenta porcento das vezes estou quieta, calada, com ar de mal humorada enquanto que estou em transe, com um fluxo de idéias constante. Parece que meu esporte favorito é passar a impressão errada, ou as pessoas se contentam apenas com um arquétipo pré-estabelecido ao invés de se darem o trabalho de fazer um julgamento autêntico sobre mim, baseado na sua própria experiência. Na verdade, olho obliquamente pra maioria das pessoas, gosto de observar tudo e todos. E, sim, esse é meu outro grande defeito. Dou a impressão que sou superior, uma merdinha qualquer que se acha. Mas sou assim, oras! Olho porque tenho que olhar, irrito-me porque tenho que me irritar, como porque tenho que comer e assim sucessivamente. Se você permitir um pouco mais de sabedoria para lidar com pessoas, certamente compreenderá o que é dar de cara com algo estupidamente novo e, por assim dizer, não irá julgar-me imediatamente (e estendo isso para todas as pessoas, cada uma com sua particularidade, gostem os outros ou não). Imediatismo, sem dúvida, concorre com a deficiência de sabedoria. Sou minuciosa com a gramática, odeio cometer erros ortográficos e odeio que cometam perto de mim, apesar de ter um sotaque interiorano e conversar errado, por vício mesmo. Mas a fala informal é livre, fato. Também fico horas vagando pela Internet procurando algo que me agrade. Como uma boa freqüentadora de redes sociais, procuro me entreter na página de milhares de pessoas, para me deparar com várias personalidades diferentes. Faço também porque gosto de olhar aquele cara lindo ou aquele ser bizarro namorando fulano que deveria era namorar comigo. Não tenho frescura com comida. Só passas e cebola crua. Então, nunca me ofereça alguma coisa com passas e cebola porque não vou comer, nem por educação. Sou incompleta. Sempre me falta algo, sempre busco o além. Quero um grande amor, família unida, amigos próximos, atenção, companhia, quero ser boa em tudo que faço (não por prepotência, mas por gostar de resultados positivos quando dou o meu melhor) e nunca estou satisfeita. Gosto de músicas, filmes e livros. Não me falta vontade de esmurrar muita gente que me incomoda - pessoas fracas de espírito, fracas de conteúdo, idéias, ideais, fracas de amor próprio. Preciso que alguém me esmurre pelo último motivo, por favor. Oscilação de humor é comigo mesmo. Pelo menos bruscamente, sim. Senhor meu pai, que adora brincar comigo, que o diga.
Sou indecisa, categórica, racional, passional, tenho personalidades transitórias. Tem dias que não me suporto, quero distância de mim, nem meus bons amigos me toleram o tempo inteiro.
Não sei você, mas tenho amigos ímpares. Daqueles que ouvem, aturam, atentam, pervertem, enraivecem, entristecem, enlouquecem, entorpecem. Passaria horas aqui enumerando características, mas não é a intenção nem vou fazê-lo. Todos são especiais. Cada um com seu jeitinho, com suas birras, loucuras, paranóias, sonhos, desejos. Apesar de não saberem ou não imaginarem, estudo e analiso o comportamento de cada um em especial. Não sou maluca, é costume. É divertido você se deliciar com o comportamento de quem você gosta.
Boa parte do meu silêncio é dedicado para ouvir as pessoas, o restante uso para pensar, dificilmente fico num vácuo mental. Muitas pessoas reclamam disso, mas não, não se ache no direito de me obrigar a falar o tempo todo ou quanto considera... normal. Detesto falatório exacerbado, meus ouvidos doem. Já que existem cursos de oratória, cursos de escutatória também seriam louváveis, como já disse Rubem Alves.
Tenho nostalgia constante. Do tempo que marcou a melhor época que não tive. Só de pensar, tenho saudade do que não aconteceu, dos passos que não dei, das palavras que não disse, das coisas que me privei de fazer. É. Estou presa ao que não aconteceu, talvez por representarem algo que não passaram apenas do meu imaginário idealizado. Sou covarde. Arrependo-me de tudo que não fiz. Clichê? Pode ser. Mas o clichê mais verdadeiro que me utilizo, com certeza. Porém não pense que nada vivi, pelo contrário, tenho saudade da minha infância, de pessoas amadas que se foram, de amigos que perdi pela falta de contato, da sensação de ser criança, dos momentos felizes, idiotas, insanos ao lado de pessoas que gosto. Meu saudosismo e nostalgia se equilibram, mas o último me provoca sensações as quais o outro não consegue compensar. O tempo me trouxe outras pessoas: novas, velhas, iguais e até mesmo diferentes. Apagou antigos resquícios dos que partiram, mas de outros, ainda permanece o borrão. E não consigo conviver bem com eles.
Mas poxa, sou jovem! Tenho tempo suficiente para aprender como se deve fazer assim e não assim. De sentir o que meus olhos não podem ver. Ouvir o que uma voz não pode dizer. De aceitar o que dói (difícil!). O tempo me ensinou a pensar mais, em mais e em menos, no que deve ser pensado com atenção. Vem ponderando a minha ansiedade em me mostrar ao mundo, em querer devorá-lo e que todos me enxerguem.
Tive que regurgitar as pedras e espinhos para descobrir que devo ir apenas nas partes que devem ser devoradas com carinho. E isso vem me ensinando a ter paciência e aprender que o tempo, ah, o danado do tempo, pode me esperar mudar.